Primo Basílio (2007)

14 de Dezembro de 2012 at 18:25 Deixe um comentário

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São filmes como esse que tornam muito difícil a nossa missão de defender o cinema brasileiro. Em qualquer discussão sobre o tema sempre perderemos essa batalha, pois é impossível defender “Primo Basílio”. Baseado no livro homônimo do português Eça de Queiróz, a produção brasileira dirigida por Daniel Filho (FILME NÃO É NOVELA, APRENDA ISSO PELO AMOR DE DEUS!) é uma afronta à inteligência do público e um desrespeito à obra original. Para criticar (mesmo) o filme terei que falar sobre sua trama, então, se você não quer spoilers de uma história criada há 134 anos, não leia o texto antes de ler o livro. Sim, o livro, porque não recomendo este filme nem pra meu pior inimigo.

Publicado em 1878, o livro é um dos mais famosos e importantes do escritor português. Embora não seja meu favorito, considero “O Primo Basílio” apenas bom, mas muito chato; sou mais “Os Maias” e muito mais “O Crime do Padre Amaro”, obra contundente e indispensável. Mas… foco! A obra retrata uma família burguesa de Lisboa que vive, aparentemente, num lar perfeito e feliz. E como é costume de Queiróz, ele nos mostra que nada é tão perfeito assim e a vida da protagonista Luísa muda quando seu marido (Jorge) viaja a trabalho no mesmo período em que seu primo Basílio (antigo namoradinho) volta à cidade. Luísa trai o marido com Basílio e, quando Jorge volta para casa, ela é chantageada pela empregada (Juliana).

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A amargurada e cruel Juliana faz da vida da pobre Luísa um inferno, obrigando a protagonista a fazer todas as tarefas domésticas. A chantagem pode parecer infantil num primeiro momento, mas a nova configuração da casa incomoda Jorge, mas Luísa não pode entregar a empregada porque senão estaria se entregando. Luísa vive um verdadeiro inferno psicológico por muito tempo e finalmente sucumbe a ele, morrendo no fim do livro.

A tragédia portuguesa foi transferida para a cidade de São Paulo da década de 50 na adaptação brasileira. Com um elenco estelar (global), o filme se preocupa apenas em esticar ainda mais o pedestal em que a mídia coloca Glória Pires (Juliana) e mostrar cenas de sexo entre Luísa (Débora Falabella) e Basílio (Fábio Assunção). Sem contar no sempre dispensável Reynaldo Gianecchini (Jorge). Desculpa mundo, mas tire a beleza de Giane e nada sobra. Ele é um ator horroroso e não acrescenta nada a nenhum personagem. Ter Gianecchini no elenco é como entrar pra jogar futebol com apenas 9 na linha.

O filme se demora mais nas cenas de nudez e sexo entre o casal de amantes do que na relação abusiva e chantagista entre Juliana e Luísa, que para mim é a melhor parte da história. A pressão psicológica em que a emprega submete a patroa é sensacional. A inversão de papéis é muito bem construída no livro, assim como a degradação mental e física de Luísa. E isso não é passado no filme. A adaptação não tem 1% da profundidade alcançada pela obra original.

“O Primo Basílio” não é apenas um casal de amantes se pegando. O livro é uma crítica à sociedade burguesa e um retrato escancarado da classe mais baixa, retratada por Juliana. A empregada solteirona, feia, rabugenta odeia a vida que leva, assim como odeia todos à sua volta. A vida da insuportável mulher é fazer da vida do outro um inferno, e é isso que ela faz quando inverte o papel na casa dos patrões. Juliana passa a ser a patroa e Luísa a empregada humilhada.

Para mim o grande defeito de “Primo Basílio” é seu diretor, Daniel Filho. Todo o meu respeito à carreira do profissional na TV, mas ele não sabe fazer cinema, ou melhor (ou pior) ele deve achar que cinema é televisão, porque “Primo Basílio” nada mais é do que uma novela contada em duas horas numa tela grande. Gianecchini é sofrível como sempre, Glória Pires se esforça para dar dignidade a uma maravilhosa personagem pessimamente explorada pelo diretor, e Débora Falabella e Fábio Assunção tentam salvar suas peles em meio a uma história muito mal contada.

Por Débora Anício

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