Posts tagged ‘Dira Paes’

Cláudio Assis é rei

Cláudio Assis

Sempre gostei de filme brasileiro, embora não saiba precisar qual foi a primeira película verde amarela que assisti. Provavelmente foi algum trabalho dos Trapalhões na Sessão da Tarde. Sei apenas que sempre curti os filmes produzidos aqui e, durante muito tempo, só conseguia identificar os atores, geralmente aqueles que também estavam no ar na TV.  Nunca tive a visão que os verdadeiros amantes da sétima arte têm: a de conhecer e admirar o diretor da obra. Adquiri essa visão há relativamente pouco tempo e, embora conheça muitos diretores brasileiros, o meu preferido é Cláudio Assis.

Ok! Temos Fernando Meirelles, Walter Salles, Fábio Barreto e muitos outros, mas não consigo me lembrar rapidamente (sem consultar o Google) de todos os filmes que eles fizeram. Sei que isso não é parâmetro, afinal meu rei nacional (Cláudio Assis) tem apenas três longas e cinco curtas em sua carreira. Mas Cláudio Assis é marcante! É impossível assistir a um de seus filmes e não se chocar, não sentir raiva, não sentir nojo, não odiar alguns personagens e não questionar tudo o que está acontecendo na telona. Primeira dica pra quem quer ver um filme de Assis: Se você gosta de deixar seu cérebro do lado de fora do cinema ou está procurando entretenimento raso, nunca assista a um filme dele.

Assis tem três filmes: Amarelo Manga (2003), Baixio das Bestas (2006) e o mais recente, Febre do Rato (2011), que infelizmente ainda não assisti. Motivos: Não chegou ao cinema da minha cidade (beijo, Moviecom!), não encontro pra alugar, não encontro no youtube e nem nos sites de download da vida. Então, se você tem Febre do Rato, por favor, me empreste.

Fui apresentada ao universo ficcional deste pernambucano com Amarelo Manga, filme que adquiri apenas pelo título, que achei muito interessante. Apesar de ter a obra, não vi o filme. Acabei perdendo o arquivo e fui assistir Baixio das Bestas. Conclusão: Adorei e fui correndo ver Amarelo Manga.

Baixio das Bestas

Baixio das Bestas

Protagonizado por Matheus Nachtergaele, Caio Blat e Dira Paes, “Baixio” conta a história de uma menina de 16 anos explorada por seu avô, um grupo de jovens violentos que apenas sabe tratar uma mulher como um animal, e as prostitutas da cidade à espera de uma noite lucrativa. Contado na aridez do nordeste, o filme está repleto de palavrões, nudez, crueldade e violência, muita violência. Assis joga na cara do espectador toda a maldade do ser humano de uma forma nua e crua. É impossível não manifestar qualquer sentimento negativo diante do filme. A babaquice e grosseria dos personagens de Nachtergaele e Blat, assim como a estupidez da personagem de Dira Paes, são revoltantes.

Destaco duas cenas do filme. A primeira é de um estupro coletivo contra uma das prostitutas da cidade, momento em que é quase impossível não se compadecer com a profissional do sexo diante de tamanha violência. A outra é uma discussão entre o avô explorador da adolescente com um peão que tenta salvar a menina. Poucas vezes vi uma discussão tão bem feita no cinema. Os atores se encaravam com tanto ódio e com o texto tão na ponta da língua que mais parecia não haver roteiro.

Amarelo Manga

Amarelo Manga

Depois de me encantar com “Baixio”, fui correndo ver Amarelo Manga e, embora seja natural que o segundo longa do diretor seja melhor que o primeiro (experiência para que te quero), não me decepcionei nem um pouco com a obra estrelada por Leona Cavali, Chico Diaz, Jonas Bloch e mais uma vez, Dira Paes e Matheus Nachtergaele, e que custou apenas R$  450 mil para ser produzido.

O filme conta a história de uma dona de bar (Leona Cavali) assediada pelos machões da cidade, mas que consegue manter o respeito; do homossexual Dunga (Nachtergaele) que trabalha em um hotel e é apaixonado pelo machão Wellington (Diaz) que por sua vez é casado com a evangélica Kika (Paes).

A história toda se passa na periferia de Recife muito bem retratada por Assis, a pobreza e tristeza dos moradores do local é contagiante. Com poucos minutos de filme você entra na pasmaceira vivida por todos.

Não vou me estender ao falar sobre esse clássico extremamente elogiado pela crítica nacional e internacional, vou apenas citar algumas passagens que me marcaram. Mais uma vez temos palavrões, nudez, humor negro, violência e… necrofilia. Também temos um Nachtergaele inspiradíssimo e super irritado ao ter que cuidar de um velório justo no dia de encontrar seu amado. Outra cena que me marcou bastante foi a participação de Cláudio Assis na obra. Enquanto a recatada dona de casa Kika caminha pelo centro da cidade, sob o olhar dos homens que vêem a beleza através das roupas comportadas, Assis chega bem próximo ao rosto de Dira Paes e solta esta pérola: “O pudor é a forma mais inteligente de perversão”. Naquele momento o diretor entra em cena pra nos mostrar que a santinha não é tão imaculada como pensamos, e nos dá uma prévia do que está por vir.

Mas por que Amarelo Manga? Foi esse título que me fez assistir ao filme, mas calma, que a própria obra te explica o que é o amarelo: “De cabelos cor amarelo-manga, como a de colchões mofados, paredes descascadas, rostos desnutridos, remelas, escarros, dentes, mesas, chapéus gastos, carros velhos, cabos de peixeiras e coisas embaçadas pelo tempo”. Em um mundo politicamente correto e colorido, vemos o amarelo como algo positivo, inspirador e bonito, mas nas mãos de Assis o amarelo ganha tons negativos, pessimistas e cruéis. Há outro sentido para o amarelo do título, mas esse não é bem explicado pelo filme, a explicação que encontrei está em uma crítica, leia e entenda um pouco mais sobre o Amarelo Manga.

Sei que nem posso dizer que sou fã, afinal não vi nenhum curta de Assis ainda. Mas esse diretor já está na galeria dos meus favoritos. O pernambucano deixa sua marca em todas as suas obras, faz um cinema de verdade e com paixão. Virei fã logo de cara e estou à procura de todas as obras do diretor, então, se alguém tiver algum curta ou Febre do Rato, por favor, me empreste.

Por Débora Anício

4 de Dezembro de 2012 at 0:40 Deixe o seu comentário

À Beira do Caminho (2012)

Penso que esse filme de Breno Silveira (diretor do aclamado “Dois Filhos de Francisco”), lançado em agosto deste ano, foi feito para fãs de Roberto Carlos. Com sua história sendo pontuada pelas músicas do rei, “À Beira do Caminho” tenta fazer uma homenagem ao consagrado cantor e atrair seus fãs para a sala de cinema. E acho que falharam nesse último quesito, pois o filme não teve uma bilheteria nem de perto expressiva, com pouco mais de 400 mil espectadores, e quando eu, uma não fã do rei, fui assisti-lo, só havia mais uma pessoa na sala de cinema.

Moral da história: Os fãs e não fãs do rei perderam, pois o filme é muito bom. Apesar da aura Roberto Carlos e da divulgação focar nessa relação estreita com o consagrado cantor, fui ao cinema para ver João Miguel de protagonista e não me decepcionei. E nem poderia, já que estou falando de um dos rostos mais presentes no cinema brasileiro e um dos atores mais competentes do meio (quem viu “Estômago” e “Cinema, Aspirinas e Urubus” sabe do que estou falando).

O filme conta a história de um caminhoneiro, João (João Miguel), com um passado trágico, e que segue pelas curvas das estradas de Santos tentando esquecer seu infortúnio. Só que no meio da estrada, ou na beira do caminho, ele conhece o garoto Duda (Vinícius Nascimento), que acabou de perder a mãe e tem o sonho de ir para São Paulo conhecer o pai. O menino, claro, se torna um problema para ele, mas com o passar do tempo e dos quilômetros ele se apega ao garoto. Essa relação e o encontro com uma namorada do passado (Dira Paes) o faz reviver o inferno de tempos atrás e rever sua posição diante disso, diante da vida.

O protagonista amadurece ao lado do garoto e, finalmente, toma coragem de enfrentar as histórias não finalizadas de sua vida. E toda essa trajetória é marcada pelas canções do rei. O filme se desenrola com a mesma emoção passada pelas canções, ou seja, é Roberto Carlos quem dá o tom.

O Road Movie das canções de Roberto Carlos percorre o Brasil pelas estradas da Bahia e de São Paulo. Durante esse percurso somos agraciados com proféticas frases de pára-choque e com apenas quatro músicas na voz de Roberto, as únicas que ele liberou: “Outra Vez”, “O Portão”, “Como Vai Você” e “A Distância”, sendo essa última sugerida pelo próprio artista. As outras músicas são interpretadas pelo próprio elenco. Sim, vemos João Miguel, Dira Paes e até Vinícius Nascimento soltando o gogó. E sim, foi uma experiência interessante. Além das vozes do elenco, o filme também conta com as versões de outros cantores para as músicas do rei, como “Nossa Canção”, interpretada lindamente por Vanessa da Mata.

Como disse no início, “À Beira do Caminho” não foi um sucesso de bilheteria como a saga dos irmãos sertanejos, o que é uma pena. É decepcionante entrar na sala de cinema (que só nos oferece um horário para ver filmes brasileiros) e encontrar apenas um espectador. Duas pessoas assistiram a um bom filme que, na minha humilde opinião, é bem melhor que “Dois Filhos de Francisco”. Mas infelizmente pouca gente vai saber disso, afinal apenas pouco mais de 400 mil pessoas saíram de casa para ver “À Beira do Caminho”.

Por Débora Anício

27 de Novembro de 2012 at 1:32 Deixe o seu comentário


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